sábado, 24 de maio de 2014


À Palo Seco 
Belchior
                                                                                                                      
                                                                                                                            Renata Guimarães






Letra:

À Palo Seco


Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
– Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:
2x (bis)
- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.
(2x)

Analisando a música:

À palo seco foi um termo usado para aqueles que agiam de forma repressiva, buscavam reprimir o florescimento da cultura nordestina, a criatividade brasileira.
Esse termo surgiu como voz ativa contra a formatação e reforma que cada vez eram explícitos nos Festivais Culturais de Poesia e Música Popular nos tempos da ditadura.
Inspirado no poesia de João Cabral de Melo Neto, Belchior gravou em 1974 o disco "À palo seco" que também traz uma canção com o mesmo nome. 

A letra da música, traz a nós um pouco da vivência das ditaduras que vão se espalhando pelo território sul-americano, sendo algumas delas (até mesmo a brasileira) patrocinada pelos EUA de certa forma a afastar o perigo eminente do socialismo, tendo visto que a ditadura mantinha a ordem no país! A música trata de uma rapaz jovem que em um ato de rebeldia, prefere manter suas raízes.
Ainda nesta música, Belchior responde a uma crítica do cantor baiano Raul Seixas e seu parceiro Paulo Coelho, que o chama de “latino americano que não tem cheiro nem sabor” na música “Eu também vou reclamar”. Enquanto Raul sonhava com um mundo alternativo, Belchior viviam a realidade de uma ditadura militar; enquanto Raul se inspirava em artistas norte-ameticanos como Bob Dylan e Elvis, Belchior preferia se inspirar em uma realidade latina, como no trecho “Um tango argentino me vai bem melhor que um blues”.

À palo seco ainda foi regravada por nomes como Oswaldo Montenegro e as bandas Los Hermanos e Cidade negra.







Todos Os Olhos (Tom Zé) - Por Ellen Alves



Num país oprimido pela ditadura militar vigente na época, cantores e compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Belchior e Tom Zé “abusavam” de seu talento para driblar vigilância dos órgãos de censura. Com o intuito de expor a insatisfação que boa parte da população, e principalmente, a juventude, que nas palavras de Tom Zé no vídeo abaixo da música Todos os Olhos, estava excitadíssima com a tropicália, os artistas da época compunham músicas com teor contestador que passavam com certa facilidade pela censura. 


Além da música contestadora, o álbum homônimo, tinha uma capa considerada subversiva para época. A controversa capa do disco foi uma ideia irreverente, do então amigo de Tom Zé, Décio Pignatari. Em plena ditadura este sugere pregar uma peça nos censores, fotografando algo que parecia ser um “outro olho”, mas na verdade era apenas uma bola de gude no ânus de uma modelo.

                                   Todos os Olhos - Tom Zé 

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá de dentro da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando que eu seja um deus
querendo apanhar, querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.

Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até fraco,
eu sou até fraco.




Fontes bibliográficas:    Wikipédia e Vagalume 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Divino e Maravilhoso (Gil e Caetano) - Por: Thamires Lopes

(Imagem: Internet)
“O ano era 1968. Caetano Veloso, expoente-mor da Tropicália, brigava com o público no III Festival da Canção. A reação da plateia ao seu "É Proibido Proibir" não foi das melhores, e a revolta do baiano foi justamente por não visualizar sua mensagem recebida. Os urros e vaias dos ouvintes impediam que o discurso anti-censura de Caetano fosse concebido como objeto de protesto naqueles anos de chumbo.

A música brasileira decididamente não era mais a mesma - além da leveza da Bossa Nova e todo o movimento da Jovem Guarda, as poesias reacionárias do movimento tropicalista causaram desde então um ruído poderoso. Os seus representantes - Gil, Caetano, Bethânia, Tom Zé, Mutantes foram endeusados e amaldiçoados ao mesmo tempo, e chegava a ser constante a quantidade de vaias e aplausos que paradoxalmente obtiam em suas manifestações artísticas.

No mesmo 68, contudo, outra música de Caetano, dessa vez composta em parceria com Gilberto Gil, conseguiu imprimir um outro discurso, que, a despeito de ter sido no calor do auge da Tropicália, ainda se faz oportuno a cada audição, nos dias de hoje. "Divino Maravilhoso" coroou o lançamento do disco de maior manifesto dos Tropicalistas, o "Tropicália ou Panis Et Circenses", no mesmo ano, com participações de Nara Leão, Gal Costa e dos Mutantes. Gal já vinha construindo sua imagem de boa moça que cantava bossa sentada num banquinho - Caetano lhe ofereceu a canção e perguntou como ela queria cantá-la: "de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira'. Gil se comprometeu a fazer um arranjo à altura e a moça foi projetada para todo o Brasil em Novembro do mesmo ano, ao interpretá-la no Festival da Música Brasileira, da TV Record. Causou uma estranheza inicial no público - Gal estava incrível - agressiva e cantando de forma quase irreconhecível, caprichando nos agudos e explorando sem limites toda potencialidade de sua voz. Também houve uma ruptura total de sua imagem bem comportada: polemizou com cabelo black power e colares bufantes, numa atmosfera completamente hippie. Aos poucos, suavizado pelo primeiro impacto - o público relaxou e começou a aplaudir a grandiosidade da apresentação. A mensagem era, finalmente, transmitida e entendida - atenção para o palavrão, para a palavra de ordem - tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso. O jogo de paradoxos se fez oportuno e eternizou uma das melhores músicas já produzidas na música popular brasileira. E o referido episódio mostra que a maneira de se c(a)ontar é tão importante quando o conteúdo...”
                                                                                                                               (Site: Entulho)




Atenção / Ao dobrar uma esquina /  Uma alegria
Atenção, menina / Você vem / Quantos anos você tem?

Atenção / Precisa ter olhos firmes / Pra este sol /
Para esta escuridão

Atenção / Tudo é perigoso / Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte

Atenção/ Para a estrofe, para o refrão
Pro palavrão / Para a palavra de ordem

Atenção / Para o samba exaltação
Atenção / Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso / Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte

Atenção / Para as janelas no alto
Atenção / Ao pisar no asfalto mangue
Atenção / Para o sangue sobre o chão

É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte

Atenção / Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso / Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte


Divino maravilhoso é uma canção que nos mostra o quanto o movimento sofria sérias represálias. A ditadura estava em seu auge, e todos deveriam ter a atenção na hora de se expressar, pois qualquer expressão poderia ser motivo de prisão, exílio ou extermínio.

Com isso a letra diz em sua primeira estrofe: “Atenção /Ao dobrar uma esquina / Uma alegria / Atenção, menina / Você vem / Quantos anos você tem?
Atenção / Precisa ter olhos firmes / Pra este sol / Para esta escuridão”

Já em sua terceira estrofe, temos uma forte metáfora nos dizendo o quanto tudo é maravilhoso, aos olhos governamentais da época, já que tudo que era divulgado, toda expressão era controlada e monopolizada perante o que o governo queria. Por isso a citação de que tudo era perigoso, pois se alguém saísse fora da linha determinada pela ditadura, sofreriam sérias conseqüências. “Atenção /Tudo é perigoso /Tudo é divino maravilhoso / Atenção para o refrão”

Em sua quarta estrofe, podemos dizer que os compositores pediam para que aqueles que eram contra todo essa ação governamentalista e militarista, ficassem fortes e firmes, para não temerem as conseqüências e assim ir contra todas as represálias e direcionamentos dados pela ditadura.

 É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte / É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte.

E assim segue a canção, explicitando que tudo é “Divino e Maravilhoso” aos olhos dos governantes e militares, resultado da “limpa” que os mesmo faziam dia após dia no país - pois até a música brasileira estava presa nas garras militantes-, para que tudo ficasse dentro de padrões ditados para os cidadãos da época. Com avisos de cuidados, mas também com motivação para serem fortes e não deixarem com que a ditadura os guiassem, para que as expressões não sejam escondidas e que não temessem as conseqüências, na esperança da mudan
ça.

A música então tornou-se um programa televisivo, de mesmo nome, comandado por Gil e Caetano, semanalmente. O programa
acabou gerando manifestações de repúdio da ala mais conservadora e careta da sociedade. Pais de família escreviam cartas cheias de ira para a direção do programa e políticos de cidadezinhas do interior se revoltaram com o que chamaram de “agressões”.

O “Divino, Maravilhoso”, acontecia todas as segundas-feiras, ao vivo, tinha auditório livre para o público e cenário mutante. Eles receberam nos programas convidados, como Mutantes, Tom Zé, Torquato Neto, Nara Leão, Juca Chaves e Paulinho da Viola, entre outros
.


Programa Divino e maravilhoso (Imagem: Internet) 
Bibliografia:
Site:  Entulho
Site:  Tropicalia

Todos os olhos - Tom Zé ( CAMILA GLEICE ROCHA )



Não podemos começar a falar da música sem antes falar da capa do álbum, uma ideia irreverente, do então amigo de Tom Zé, Décio Pignatari, que em plena ditadura sugeriu pregar uma peça na censura que assolava o Brasil fotografando algo que parecia ser um “outro olho” (um ânus para ser mais exato), mas na verdade era apenas uma bola de gude na boca de uma modelo. A capa de Todos Os Olhos é tema de inflamadas discussões até hoje.

    Capa do Álbum Todos os Olhos de Tom Zé; ano de lançamento: 1973.

                               


Sobre a música...
Um samba meio esquisito, com violões de 12 cordas e uma letra tomzeana. "De vez em quando todos os olhos se voltam prá mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo apanhar / Querendo que eu bata / Querendo que eu seja um Deus."
Como pano de fundo, há o conflituoso cenário político da época marcado pela repressão militar do governo brasileiro.
Apesar do seu trabalho realizado na década de 1970, tanto no aspecto criativo e de cunho contestador, Tom Zé não se caracterizou por um grande sucesso de público e nem pelo fácil entendimento de suas experimentações musicais.
Todos os Olhos demonstrava ousadia e apresentava características experimentais que causavam estranhamento num primeiro contato com a obra, o distanciou dos meios de comunicação, mas o fez escutado pelos melhores ouvidos do país.
Neste ponto se discute duas formas interessantes de comportamento das gravadoras na época. Para alcançar objetivos lucrativos, as companhias optavam por produções musicais mais populares, de sucesso mais imediato. Entretanto, havia o nicho de consumo ligado a um público de “bom gosto”, as empresas fonográficas abriam espaço para artistas diferenciados em sua produção musical, gravadoras como a Continental, que lançou na época três álbuns de Tom Zé. Se não houvesse essa mentalidade por parte das gravadoras, artistas como Tom Zé, Walter Franco, Jards Macalé, que tinham pouco apelo popular, não teriam espaço para apresentar sua obra artística e crítica na época da Ditadura.



Todos os Olhos - Tom Zé


De vez em quando

todos os olhos se voltam pra mim,
de lá de dentro da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,

eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando

todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.

De vez em quando

todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando que eu seja um deus
querendo apanhar, querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.

Mas eu não tenho chicote,

eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó.

Mas eu sou até fraco,

eu sou até fraco,
eu sou até fraco.









Bibliografia


http://www.rbec.ect.ufrn.br/data/_uploaded/artigo/N3/RBEC_N3_A2.pdf

Artigo As inovações de Tom Zé na linguagem da canção popular dos anos 1970.

https://www.youtube.com/watch?v=QBTYAEqaF1E

http://letras.mus.br/tom-ze/164919/

http://musicaestranhaeboa.blogspot.com.br/2007/12/artista-tom-z-lbum-todos-os-olhos.html





quinta-feira, 22 de maio de 2014

Todos os olhos - Tom Zé - Bruna Miranda

A ideia da capa é do poeta concretista Décio Pignatari, que decidiu ironizar com a censura da ditadura militar da época. 



Tempo de ditadura. Toda a produção cultural, letras, músicas e arte-final do LP passam por censores antes de ir às lojas. Apesar da noite no “Retiro Rodoviário” não ser a única necessária para conseguir a foto da capa do disco, um ano depois dela Todos os Olhos vem ao mundo.Os censores não atinaram para o que seria aquele fundo róseo com uma gema ao centro. Ainda bem. Tom Zé, o artista tropicalista, sabia que a circunferência no centro da capa era uma bolinha de gude. A repousar sobre uma parte verdadeiramente íntima do corpo humano, aquela mais abaixo do final das costas.A idéia – de assombrosa afronta à censura – foi do poeta vanguardista Décio Pignatari, grande amigo de Tom Zé. Não eram tempos de brincar com a sorte. E toda a equipe de criação do álbum guardou muito bem o segredo.
Então começam os cavacos e a faixa título, Todos Os Olhos. Um samba meio esquisito, com violões de 12 cordas e uma letra tomzeana. "De vez em quando todos os olhos se voltam prá mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo apanhar / Querendo que eu bata / Querendo que eu seja um Deus."

Fazendo referencia a ditadura, mostrando o violão e o estilo tropicalia, referindo que os olhos da ditadura se voltam para ele, falando da escuridão que os músicos vivem .


Referencia bibliográfica

http://www.tomze.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9&Itemid=45

http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/blog/2012/08/30/classico-de-tom-ze-tem-mesmo-um-anus-na-capa-diz-fotografo/

http://guia.folha.uol.com.br/shows/2013/12/1377982-tom-ze-revisita-polemico-album-que-provocou-a-ditadura-militar.shtml



sábado, 17 de maio de 2014

Aquele Abraço (Gilberto Gil) - MAYARA CARDOSO


A canção foi produzida para fazer uma homenagem a cidade fluminense, mas também para criticar a ditadura militar que ocorria em 1969, ano em que a música foi escrita. Gil ao ser libertado do quartel no Realengo, no qual passou sessenta dias preso, retornou em uma quarta-feira de Cinzas ao seu povo e a sua cidade e nesse clima de volta ele foi deixando seu “abraço” de uma maneira especial ou irônica a todos aqueles que marcaram sua existência, assim nasceu a canção Aquele Abraço. Na segunda estrofe da canção, o principal signo é o do comunicador Chacrinha um dos homenageados por Gil em sua música, pois sua atuação foi fundamental não só no período histórico, no qual a música foi composta, como também pela função que o apresentador da Tv Tupi desempenhava no país na época. No cenário político, Chacrinha ocupava um espaço polêmico. Era taxado por segmentos de esquerda como alienado. Seu humor de duplo sentido, por outro lado, também não agradava o governo militar e a direita conservadora. Chacrinha foi o retrato do povo brasileiro.

A canção não só expressa a indignação de Gilberto Gil à ditadura da época, como também claramente faz uma crítica à sociedade brasileira. Gil por meio dos versos da música desenha uma imagem perfeita do Rio de Janeiro e demonstra sua grande felicidade pela liberdade alcançada, após ser encarcerado em uma prisão do Realengo

Aquele Abraço
O Rio de Janeiro continua lindo,
O Rio de Janeiro continua sendo,
O Rio de Janeiro, fevereiro e março,
Alô, alô, Realengo, aquele abraço.
Alô torcida do Flamengo, aquele abraço.

Chacrinha continua balançando a pança,
E buzinando a moça e comandando a massa,
E continua dando as ordens do terreiro.
Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro.
Alô, alô, Teresinha, Rio de Janeiro.
Alô, alô, seu Chacrinha, velho palhaço.
Alô, alô, Teresinha, aquele abraço.

Alô moça da favela, aquele abraço.
Todo mundo da Portela, aquele abraço.
Todo mês de fevereiro, aquele passo.
Alô Banda de Ipanema, aquele abraço.
Meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço.
A Bahia já me deu régua e compasso.
Quem sabe de mim sou eu, aquele abraço.
Pra você que me esqueceu, aquele abraço.
Alô Rio de Janeiro, aquele abraço.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Cálice ( Chico Buarque e Gilberto Gil) - Henrique Nunes

Cálice - Chico Buarque



Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Na música Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, o trecho "( Pai, afasta de mim esse cálice/ De vinho tinto de sangue)", evidencia todo o regime autoritário vivido na época da ditadura militar. Na verdade, a palavra " cálice", nada mais é do que uma alusão ao verbo calar, no imperativo, que exprime toda a repressão e opressão da época com a consequente ausência da  liberdade de expressão. O vinho tinto de sangue citado no fim da estrofe, refere- se às torturas e mortes ocorridas no período.
No trecho " ( Essa palavra presa na garganta) ", também fica evidente a ausência da liberdade de expressão imposta na  ditadura. Havia o desejo de se manifestar contra a repressão, porém quem o fizesse seria vítima das barbaridades da época.

Fontes: http://analisedeletras.com.br/chico-buarque/calice/
             http://letras.mus.br/chico-buarque/45121/
             http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1lice_(can%C3%A7%C3%A3o)